APRUPP no jornal «Expresso»

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O «Expresso» do dia 2 de fevereiro traz um artigo sobre os centros comerciais de primeira geração, tendo como pano de fundo a tertúlia APRUPP dedicada ao tema: «Vida e morte dos pequenos centros comerciais».

Centros comerciais à espera da reconversão. Existem em Portugal 50 centros comerciais da primeira geração, muitos deles ao abandono. Poucos passaram pela reconversão

Já há quem lhe chame a “Casa da Música Alternativa” e o caso não é para menos. No antigo centro comercial Stop, no Porto; 86 lojas foram reconvertidas em estúdios de gravação ou salas de ensaio e por lá passam todos os dias mais de 400 músicos. Um autêntico polo para a cultura musical alternativa que veio dar vida nova a um shopping dos anos 80 e que estava há muito ao abandono, cenário infelizmente comum a dezenas de antigos centros comerciais que existem no país.

Este foi um dos (bons) exemplos referenciados na conferência organizada esta semana, no Porto, pela Associação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Proteção do Património (APRUPP). O ponto fulcral da discussão que reuniu arquitetos, engenheiros e outros especialistas da reabilitação foi a busca de soluções para os chamados centros comerciais de “primeira geração”, inaugurados durante os anos 70 e 80 e que agora estão obsoletos e abandonados.

São 50 os centros comerciais que abriram durante os anos 70 e 80. A grande maioria funciona a meio gás ou fechou. “Segundo dados da Direção-Geral do Comércio, entre 1971 e 1975 abriram 10 centros comerciais – assim considerados por terem no mínimo 12 lojas. Entre 1976 e 1980, inauguraram-se mais 40. Existem dados das aberturas mas não existem dados de fecho. Certo é que os centros comerciais não duram para sempre, nem os pequenos – os mais antigos – nem os grandes formatos que existem na atualidade”, apontou um dos oradores, Miguel Graça, arquiteto, especializado em Urbanismo e Ordenamento do Território.

Estado demite-se 

A multiplicação dos grandes centros comerciais a partir da década de 90 foi determinante para o estado de abandono a que os pequenos espaços chegaram. Miguel Graça fala da falta de regulação deste sector e da ausência de “pudor ou de interesse” por parte do Estado que se demitiu de uma função tão essencial como a do ordenamento do território. “Pelo contrário, o Estado ajudou antes ao desordenamento do território. Muitos municípios quiseram ter um centro comercial na sua localidade, cederam terrenos a custo zero. Tudo devido ao poder de atratividade dos centros comerciais. Mas são preocupantes estes espaços extraurbanos de grandes dimensões que surgiram. Veja-se o Arrábida Shopping, por exemplo: se somarmos a área que ocupa com os nós circundantes dos seus acessos, veremos que é equivalente ao centro histórico do Porto! Os estudos urbanísticos já feitos para as áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto, por exemplo, não contemplam este problema. Mas é muito urgente que as entidades públicas pensem nos espaços que existem, quais os que estão a fechar e como se podem reconverter”. Nos Estados Unidos essa transformação já começou a ser feita, realça, através da reutilização dos shoppings para centros comunitários ou espaços ligados ao desporto, por exemplo.

Muito mais fácil, em termos urbanísticos, é a reconversão de galerias comerciais ou pequenos espaços situados I).Os centros das cidades. Foi o que aconteceu com o Espaço Amoreiras, em Lisboa, que reabriu recentemente como centro de escritórios ou o shopping Bombarda, na Invicta, que hoje concentra várias empresas da área do design e das artes.

 Jerónimo Botelho, secretário da assembleia geral da APRUPP, fala de “clusterização” como uma das saídas para estes espaços. “Até porque o perfil do consumidor mudou nos últimos 30 anos e isso tem impacto na reutilização destes espaços, que podem passar pela especialização em determinadas atividades ou assumir outro tipo de funções que assegurem uma ligação maior com a comunidade”.

Como aquela que a comunidade angolana residente no Porto criou numa galeria comercial na Rua de Santa Catarina. “Este pequeno centro comercial faliu e esteve muito tempo fechado. Entretanto, e de forma natural, a comunidade angolana juntou-se e instalou ali vários negócios, desde cafés, restaurantes, um salão de cabeleireiro. Dentro deste espaço criou-se o ponto de encontro da comunidade angolana no Porto. É um exemplo muito positivo que vai além da vertente comercial”, remata Miguel Graça.

MARISA ANTUNES mvantunes@impresa.pt

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