aprupp no porto24: “Daqui a muitos anos vamos ter muitos edifícios por reabilitar no Porto”

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Entrevista a Adriana Floret (Presidente da Direcção da APRUPP) sobre a reabilitação da Baixa e Centro Histórico do Porto (consultar entrevista no Porto24):

Adriana Floret é presidente da recém-formadaAssociação Portuguesa para a Reabilitação Urbana e Protecção do Património (APRUPP). Em entrevista ao P24, a arquitecta explica as conclusões que retira dos 7 meses de funções à frente da associação que promove o diálogo sobre a reabilitação urbana no Porto.  

O que falta ser feito para que as pessoas venham efectivamente morar na baixa do Porto?

Não há receitas. Todas as cidades são uma incógnita e os interesses de cada um de nós nem sempre são fáceis de conciliar, mas, hoje, parece haver um grande interesse pela baixa e já existe a vontade de as pessoas, pelo menos dentro de alguns grupos sociais, habitarem novamente o centro. Temos de nos preocupar não só com o trazer as pessoas para a baixa, mas também em manter as pessoas que já habitam a baixa e centro histórico. É preciso estar atento a fenómenos como o da movida e a abertura de bares na zona da Galerias de Paris, que tem-se alastrado como ninguém poderia imaginar, e tem gerado uma tensão desnecessária entre os residentes desta zona e os bares. É necessário uma estratégia concertada de forma a evitar problemas como este.

A burocracia e o custo de reabilitação por metro quadrado são as razões principais para que a compra de prédios devolutos da baixa seja posta de lado?

No que diz respeito aos entraves burocráticos, penso que estão mais perto de ser resolvidos. Já não existe a espera prolongada que existia, há uns tempos, no licenciamento de projectos. No entanto, ainda há muito a fazer, nomeadamente na legislação. Sobre o custo da reabilitação e o valor desta por metro quadrado, não me parece um problema, porque, ao contrário do que algumas pessoas possam pensar, não concordamos com a ideia de que a reabilitação seja mais dispendiosa. A reabilitação que aproveita, que recupera e que restaura não pode ser mais cara, se reutiliza matérias-primas já existentes.

Neste momento, o problema maior que temos assistido é a dificuldade que as pessoas têm em investir, em adquirir crédito bancário. Há outras condicionantes que também têm de ser consideradas. Durante muitos anos, os prédios foram sendo abandonados e não podemos esperar que as cidades sejam reabilitadas em pouco tempo. Daqui a muitos anos ainda vamos ter muitos edifícios por reabilitar no Porto.

O que pensa de projectos como o “1.ª Avenida” para chamar moradores e investidores privados para a baixa?

Este género de intervenção vulgarizou-se um pouco por todo o lado, nas últimas décadas. A ideia é relativamente simples: tornar as cidades atractivas através de eventos culturais que consigam captar a atenção dos turistas e dos investidores e pôr a cidade no mapa. A lógica é sempre a mesma, a cidade deve engalanar-se, durante um certo período, para se tornar mais atractiva, mais sexy, mais trendy e, desse modo, somar uns pontos no mercado global ou local. O que é certo é que este tipo de estratégia tem resultados incertos. Existem casos de sucesso assinalável, da mesma forma que existem casos que fracassaram de todas as formas possíveis. Como disse, não há receitas. Em todo o caso, se foi possível captar verbas para alimentar o projecto “1.ª Avenida”, temos obrigação de gastar esse dinheiro da forma mais sábia possível. Acho muito interessante que, para além das iniciativas de carácter efémero, este projecto preveja uma linha orientada para o desenvolvimento da participação cívica, parece-me que, de algum modo, há um esforço para assegurar que algum deste investimento tenha resultados, a longo prazo, na qualidade de vida urbana.

Pela análise da APRUPP, qual é o perfil dos novos compradores dos prédios antigos da baixa?

Da informação que nos vai chegando, o perfil que tem predominado é do pequeno investidor que compra o imóvel e reabilita-o para a sua própria habitação. É alguém que privilegia a vida no centro da cidade e valoriza a utilização dos transportes públicos. Outro género de investidor é aquele que cria o seu próprio negócio, que é o caso da abertura de um hostel ou de uma guest house. São pessoas que vêem na baixa um potencial turístico e de qualidade de vida.

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